Boécio
c. 480-524: Filósofo, Senador e Ponte entre Dois Mundos
Anício Mânlio Severino Boécio nasceu em Roma por volta do ano 480, numa das famílias mais antigas da aristocracia romana. O Império do Ocidente tinha caído poucos anos antes. Itália era governada pelo rei ostrogodo Teodorico, e Roma vivia de uma memória que se apagava.
Órfão de pai muito cedo, foi educado por Símaco, senador e homem de letras, com cuja filha, Rusticiana, viria a casar. Dominava o grego numa época em que quase ninguém no Ocidente o lia, e fez disso a obra da sua vida: traduzir para latim Platão e Aristóteles, convencido de que os dois, lidos com atenção, diziam no fundo a mesma coisa. Não chegou a concluir o projeto. O que traduziu da lógica de Aristóteles foi, durante seiscentos anos, quase tudo o que o Ocidente conheceu da filosofia grega. Foi também ele quem deu nome ao quadrívio, as quatro artes da aritmética, da música, da geometria e da astronomia, que estruturaram o ensino medieval.
A vida pública acompanhou a intelectual. Foi cônsul em 510. Em 522 viu os dois filhos, ainda jovens, nomeados cônsules no mesmo ano, e assumiu o mais alto cargo da corte de Teodorico. Pouco depois, ao defender um senador acusado de conspirar com Constantinopla, foi ele próprio acusado de traição. Preso em Pavia, condenado sem julgamento justo, esperou a morte durante meses.
Foi nessa espera que escreveu A Consolação da Filosofia. Um homem a quem tudo foi tirado, a perguntar o que ainda lhe pertence. Foi executado em 524.
O livro sobreviveu-lhe durante mais de mil anos como um dos mais lidos da Europa. Pavia venera-o como São Severino, e Dante colocou-o no Paraíso, entre os espíritos sábios. Ficou conhecido como o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos: o homem que guardou a filosofia antiga no momento exato em que o mundo antigo se desfazia.
Obras de Boécio na Pymandra
O livro escrito numa cela, à espera da execução, sobre a única pergunta que então importava
Um homem que tudo perdera. Era um dos senadores mais poderosos de Roma, conselheiro do rei, filósofo de renome. Acusado de traição, fica preso em Pavia, sem livros e sem amigos, à espera da sentença. É nessa cela que escreve a obra que a Europa vai ler durante os mil anos seguintes.
Na Consolação da Filosofia, Boécio recebe a visita da própria Filosofia, que o encontra a lamentar a sua sorte. O que se segue é um diálogo em cinco livros, alternando prosa e poesia, sobre a Fortuna, a felicidade, o mal, a providência e o livre-arbítrio: o que pode um ser humano possuir que nenhuma desgraça lhe tire.
É deste livro que vem a Roda da Fortuna, a imagem que a Idade Média pintou em catedrais e manuscritos. É aqui que se encontra a definição de eternidade que passou a Tomás de Aquino. E há um facto que surpreende quem conhece o autor: Boécio escreveu teologia a vida inteira, mas neste livro a Filosofia argumenta apenas com a razão, sem uma única citação das Escrituras.
O rei Alfredo traduziu-o. Chaucer traduziu-o. Isabel I traduziu-o. Dante colocou Boécio no Paraíso. Poucas obras atravessaram tantos séculos com a mesma força.
Esta é uma edição integral em português europeu, com aparato crítico próprio.
Para quem é esta obra
Para quem leu o Enchiridion de Epicteto e quer ver o estoicismo levado até à metafísica. Para quem procura nas Meditações de Marco Aurélio ou nas cartas de Séneca uma resposta à perda e encontrou apenas o princípio dela. Para quem leu Aurora, de Böhme, e ficou com a pergunta sobre a origem do mal por responder. Para quem atravessa uma perda e procura argumento sólido em vez de consolo fácil.
Os dois primeiros livros movem-se no registo do estoicismo. Os três últimos entram numa metafísica exigente, que recompensa quem a acompanha até ao fim.
Perguntas frequentes
Quem foi Boécio?
Anício Mânlio Severino Boécio foi um filósofo e senador romano do século VI, conselheiro do rei Teodorico. Traduziu Aristóteles para latim e foi condenado à morte sob acusação de traição.
O que é A Consolação da Filosofia?
É um diálogo entre Boécio, preso e à espera da execução, e a Filosofia personificada, sobre a fortuna, a felicidade verdadeira, o mal e a liberdade humana.
Porque é famosa a Roda da Fortuna?
Porque entra na literatura através deste livro e tornou-se, durante mil anos, a imagem europeia da instabilidade de tudo o que depende da sorte.
Como pode haver liberdade se Deus tudo sabe de antemão?
É a pergunta do quinto livro, e a resposta de Boécio, assente na sua definição de eternidade, tornou-se uma das mais influentes da filosofia ocidental.
Vale a pena ler Boécio hoje?
Para quem enfrenta uma perda, uma mudança de vida ou a simples suspeita de que há algo por trás das aparências, é dos livros mais directos que a tradição deixou.
Esta edição
Autor: Anício Mânlio Severino Boécio
Título original: De Consolatione Philosophiae
Tradução, edição e aparato: Miguel M. Gomes para a Pymandra
Extensão: cinco livros, 39 poemas, cerca de 34.000 palavras
Inclui: 87 notas do editor, prefácio e proémio do tradutor inglês de 1897
Formatos: ebook
Clique para ler um excerto do livro
Prefere a versão impressa? Clique aqui para ver na Amazon
A Consolação da Filosofia (c. 524): o diálogo entre Boécio e a Filosofia sobre a Fortuna, a felicidade, o mal e o livre-arbítrio, em cinco livros de prosa e poesia. Edição integral em português europeu, com 87 notas do editor.