O que é o Absoluto?

A luz a brotar da escuridão, gravura de Robert Fludd (1617) de Utriusque Cosmi, imagem da manifestação do Absoluto

A luz a brotar da escuridão, Robert Fludd, 1617. In Utriusque Cosmi. Domínio público, via PD Image Archive.

Antes de avançarmos na leitura de A Sabedoria Antiga, de Annie Besant, convém definirmos aqui alguns termos que ajudarão a clarificar a nossa conceção de divindade.

Como vimos no ensaio anterior, a Teosofia proclama uma origem comum para as grandes religiões do Mundo. São os três primeiros pontos das verdades espirituais enunciadas por Annie Besant e vertidas nesse ensaio que nos trazem aos princípios de que iremos falar. Recorde-se:

  1. Uma só Existência real, eterna, infinita, incognoscível.

  2. A partir DAQUILO, o Deus manifestado, desdobrando-se da unidade à dualidade e à trindade.

  3. A partir da Trindade manifestada, muitas Inteligências espirituais que guiam a ordem cósmica.

Ora, temos aqui perfeitamente descrito o cerne do monoteísmo: um princípio inefável, tornado monádico (manifestado), dual (emitido) e por fim triúno (manifestado, emitido, materializado). Adiante, a Mónada continua a desdobrar-se em incontáveis manifestações: as muitas inteligências espirituais referidas, cujos nomes diferem de tradição para tradição. Estes Princípios de manifestação receberam também diferentes nomes nas respetivas culturas.

O Absoluto: a folha de papel em branco de Manly P. Hall

A Existência incognoscível é, em algumas culturas, comparada a um oceano primordial. Os neoplatónicos chamam-lhe o UNO; a tradição hermética, o TODO. Manly P. Hall descreve-o através da imagem de uma folha de papel em branco:

“De todos os símbolos concebidos para representar o seu estado eterno e incognoscível, uma folha de papel limpa e em branco é o menos errado.”[¹]

E também:

“O papel, estando em branco, representa tudo aquilo em que não se pode pensar, tudo aquilo que não se pode ver, tudo aquilo que não se pode sentir e tudo aquilo que nenhuma função tangível da consciência pode limitar. O papel em branco representa o ESPAÇO imensurável, eterno, ilimitado. Nenhuma inteligência criada jamais sondou as suas profundezas; nenhum Deus jamais galgou as suas alturas, nem ser algum, mortal ou imortal, descobrirá alguma vez a verdadeira natureza da sua substância. Dele todas as coisas vêm, a ele todas as coisas retornam, mas ele nem vem nem vai.”[²]

Em qualquer dos casos, o princípio é comum: uma natureza absoluta, pura, imperturbada. Os antigos chineses chamaram-lhe Tao. Os hindus chamaram-lhe Brahman. Este é o Deus adormecido, como que a existência firmada num lençol inconsciente de plenitude. Nele tudo se encontra, em latência e em potência. Nenhuma mente mortal consegue abarcar este pensamento. Para o homem ocidental moderno, a analogia aproximada (e sublinhe-se que é apenas analogia, sem valor de modelo físico) será a de tentar conceber um universo vazio, previamente ao Big Bang.

O ponto: Deus manifestado

Pela vontade, o TODO manifesta-se. Essa manifestação é representada por um ponto na folha de papel. É a manifestação que inicia toda a manifestação.

“O mais primitivo e fundamental de todos os símbolos é o ponto. Coloque-se um ponto no centro da folha: que significa ele? Simplesmente o TUDO considerado como o UM, ou primeiro ponto. Incapaz de compreender o Absoluto, o homem recolhe mentalmente a sua incompreensibilidade num ponto focal: o ponto. O ponto é a primeira ilusão, porque é o primeiro afastamento das coisas tal como eternamente são, a folha de papel em branco.”[³]

Nesta leitura, o ponto corresponde ao Nous dos neoplatónicos e ao Ishvara do Vedanta. Este é o Deus manifestado, o princípio criador do qual tudo provém.

Da dualidade à Trindade e à trimurti

Ao manifestar-se, o Nous torna-se uno e simultaneamente dual. Uno, porque é a primeira manifestação e tudo em si contém. Dual, porque, ao estar manifestado, origina o primeiro grau de separação do TODO. É o contraste entre o ponto preto e a brancura da folha de papel. O leitor moderno poderá imaginá-lo, regressando à analogia anterior, como a contenção do Big Bang previamente à explosão.

Por fim, e simplificando, emana a sua vontade criadora (Mente) para manifestar o universo. Na teologia cristã é isto o Verbo[⁴], a palavra[⁵]. Para os neoplatónicos, é o Logos. A sua emanação desdobra-se até à matéria, e temos a trindade completa:

O ESPAÇO[⁶], o Espírito e a Matéria constituem a primeira Trindade, sendo o ESPAÇO o Pai, o Espírito o Filho e a Matéria o Espírito Santo. O ESPAÇO, ainda que na realidade indiviso, torna-se por divisão hipotética Espírito Absoluto (ou Último), Inteligência Absoluta (ou Última) e Matéria Absoluta (ou Última).[⁷]

A cosmogonia vedântica é aqui composta pela trimurti védica: Brahma, o criador; Vishnu, o sustentador; e Shiva, o destruidor. Estes três princípios fundamentais definem a continuidade do universo. Apesar da aparente separação, são todos aspetos de um único Princípio.

Convém ainda dizer que não existe propriamente uma hierarquia. A mente finita humana, com as suas condicionantes sociais e religiosas, naturalmente habituada a olhar para os céus, tenderá a afirmar: Brahman desce para Ishvara, Ishvara desce para Brahma/Vishnu/Shiva, que desce para Krishna (o Brahman encarnado). Não é de todo falso, embora também não seja verdade, uma vez que, uma vez mais, são diferentes aspetos de um mesmo princípio. Do mesmo modo que não concebemos que uma árvore “desça” para frutos, ou que uma planta “desça” para flores, ser-nos-á mais fácil compreender cada um destes desdobramentos como o fruir e florir da natureza de Brahman, sem qualquer descida.


Notas

¹ Manly P. Hall, Filosofia Antiga: Vinte Conferências sobre os Mistérios, Pymandra Editora.
² ibid.
³ ibid.
⁴ João 1,1: “No princípio era o Verbo.”
⁵ Génesis 1,3: “Haja luz.”
⁶ o TODO
⁷ Manly P. Hall, Filosofia Antiga: Vinte Conferências sobre os Mistérios, Pymandra Editora.


Perguntas frequentes

O que é o Absoluto na Teosofia?
É a Existência real, eterna, infinita e incognoscível. Os neoplatónicos chamam-lhe o UNO, a tradição hermética o TODO, os antigos chineses o Tao e os hindus o Brahman.

Porque usa Manly P. Hall uma folha de papel em branco?
Segundo Hall, de todos os símbolos concebidos para representar o estado eterno e incognoscível do Absoluto, uma folha de papel limpa e em branco é o menos errado. Representa o que nenhuma função da consciência pode limitar.

O que representa o ponto na folha?
O TUDO considerado como o UM, o primeiro ponto. É a primeira manifestação e o primeiro afastamento do Absoluto. Corresponde ao Nous dos neoplatónicos e ao Ishvara do Vedanta: o Deus manifestado.

O que é a primeira Trindade?
Segundo Hall, o ESPAÇO, o Espírito e a Matéria: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Na cosmogonia vedântica corresponde à trimurti: Brahma, o criador, Vishnu, o sustentador, e Shiva, o destruidor.

Existe uma hierarquia entre Brahman, Ishvara e os deuses?
Propriamente, não. São diferentes aspetos de um mesmo princípio, e cada desdobramento é o fruir e florir da natureza de Brahman.


Este ensaio faz parte da leitura de A Sabedoria Antiga, de Annie Besant, que prossegue em O Novo Homem.

Filosofia Antiga, de Manly P. Hall, está disponível na Pymandra em ebook e em papel.

Miguel M. Gomes é o editor da Pymandra, editora portuguesa de filosofia perene, hermetismo, teosofia e misticismo.

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