O que é a Teosofia?

Primeira leitura de A Sabedoria Antiga, de Annie Besant

Este ensaio abre uma leitura da obra A Sabedoria Antiga, de Annie Besant, discípula de Helena Blavatsky e líder da Sociedade Teosófica após o seu falecimento. Em vez de sínteses ou avaliações, interessa ir ao cerne de algum do conhecimento profundo que o livro apresenta e que poderá abalar as próprias fundações do leitor. A quem uma leitura integral interessar, poderá adquirir a tradução portuguesa na Pymandra, ou ler a versão inglesa gratuitamente nalgum site de domínio público.

Teosofia: a Sabedoria Divina

Para nos introduzirmos à Teosofia, importa percebermos primeiro o que ela é. Define-a sucintamente Besant, logo na introdução: é simultaneamente filosofia, religião e ética. A palavra provém do grego Theosophia (theo = deus, divindade + sophia = sabedoria) e significa Sabedoria Divina. O seu nome antigo é em sânscrito: Brahma Vidya. Por oposição à teologia, que é basicamente o estudo da palavra de Deus, a teosofia é o conhecimento da manifestação divina. Estuda-se porque, como escreve Besant, “o pensamento reto é necessário à conduta reta, e a compreensão reta ao viver reto”. Apenas através da colocação da mente no divino podemos começar a erguer-nos acima da condição material e humana a que estamos sujeitos.

O fio comum das grandes religiões

Podemos agora passar ao próximo ponto: a Teosofia surge para unir a linha comum que existe entre as grandes religiões do mundo. Examinadas, demonstram ter as mesmas bases ideológicas, éticas e filosóficas. Eis o fio condutor com que Besant resume as principais verdades espirituais da religião:

  1. Uma só Existência real, eterna, infinita, incognoscível.

  2. A partir DAQUILO, o Deus manifestado, desdobrando-se da unidade à dualidade e à trindade.

  3. A partir da Trindade manifestada, muitas Inteligências espirituais, que guiam a ordem cósmica.

  4. O homem¹, reflexo do Deus manifestado e, portanto, fundamentalmente uma trindade, sendo o seu Eu interior e real eterno, um com o Eu do universo.

  5. A sua evolução por encarnações repetidas pelas quais é atraído pelo desejo e das quais é libertado pelo conhecimento e pelo sacrifício, tornando-se divino em potência como sempre fora divino em latência.

Besant defende que todas as grandes religiões manifestam esta sabedoria, muitas vezes escondida em plena vista sob os mantos exotéricos com que se revestem para as massas.

Uma religião primordial

Não nos é pois difícil compreender que todas as religiões provêm de uma religião primordial. Nisto, tanto a ciência como a teosofia estão de acordo. Mas assim que concordam, começam a divergir. Pois enquanto para o académico as religiões cresceram “no solo da ignorância humana, lavrado pela imaginação, elaboradas a partir de formas rudes de animismo e fetichismo”, desvalorizando assim a força do espírito humano, afirma a teosofia que a religião provém de uma cultura global pré-diluviana, extremamente antiga e há muito extinta, guardada e trazida por emissários² que “atuaram como instrutores e guias da humanidade-criança do nosso planeta, transmitindo às suas raças e nações […] as verdades fundamentais da religião sob a forma mais adaptada às idiossincrasias dos que as recebiam”.

Uma cultura anterior ao Dilúvio?

Isto pode parecer ficção, ou uma invenção elaborada, mas não vivemos nós rodeados de mistérios civilizacionais que desconhecemos? Acrescento aqui, por minha conta, alguns exemplos. As Pirâmides de Gizé são o caso mais óbvio, e há quem sustente que nenhum arquiteto ou engenheiro moderno consegue ainda replicar a sua construção. A Esfinge senta-se sob marcas de pesada erosão de água, que algumas hipóteses atribuem a chuvas torrenciais muito anteriores ao deserto árido que a rodeava. Por todo o mundo, dentro e fora de água, erguem-se pirâmides com vários graus de semelhança, e diferenças meramente culturais. Na Turquia, o complexo de Göbekli Tepe, com mais de onze mil anos, foi intencionalmente enterrado, como que para ser preservado de uma catástrofe. Os mitos de Criação apresentam todos a mesma base, a mesma ideia original entre culturas, iniciando-se por um oceano primordial. E mesmo o relato do Dilúvio surge em culturas, grandes em pequenas, ativas e desaparecidas, por todo o mundo. Será então assim tão onírico ter existido uma cultura avançada pré-diluviana, extinta nas catástrofes que assolaram o mundo durante o Dryas Recente³? De que outro modo justificamos feitos tão avançados ainda para os dias de hoje?

O próximo passo desta leitura explora a teoria da Mitologia Comparada face aos ciclos passados de evolução e inicia o conceito de divindade à luz teosófica. A série continua em O Novo Homem.

Notas

¹ Refere-se à espécie humana, sem distinção de género.
² Mestres espirituais.
³ Período geológico conturbado há cerca de doze mil anos, caracterizado por uma era glaciar súbita seguida por um aquecimento dramático. Dryas Recente.

Perguntas frequentes

O que é a Teosofia?
Segundo Annie Besant, é simultaneamente filosofia, religião e ética. A palavra vem do grego Theosophia e significa Sabedoria Divina. O seu nome antigo, em sânscrito, é Brahma Vidya.

Qual a diferença entre teosofia e teologia?
A teologia é basicamente o estudo da palavra de Deus. A teosofia é o conhecimento da manifestação divina.

Que verdades comuns encontra Besant nas grandes religiões?
Uma só Existência real e infinita; o Deus manifestado, desdobrado da unidade à trindade; muitas Inteligências espirituais que guiam a ordem cósmica; o homem como reflexo do divino, com um Eu eterno; e a sua evolução por encarnações repetidas, até ao conhecimento.

O que diz a Teosofia sobre a origem das religiões?
Afirma que todas provêm de uma religião primordial, trazida por mestres espirituais de uma cultura global anterior ao Dilúvio, que adaptaram as mesmas verdades fundamentais a cada povo.

Quem foi Annie Besant?
Discípula de Helena Blavatsky e líder da Sociedade Teosófica após o seu falecimento. Autora de A Sabedoria Antiga.


A Sabedoria Antiga está disponível na Pymandra em ebook e em papel, em português europeu.

Adquirir a obra


Miguel Gomes é o editor da Pymandra, editora portuguesa de filosofia perene, hermetismo, teosofia e misticismo.

Anterior
Anterior

O que é o Absoluto?

Próximo
Próximo

Sobre a origem e o mistério d’O Kybalion e dos Três Iniciados