A Alquimia de Ler James Allen
As a Man Thinketh é, indubitavelmente, a obra mais universal e lida de James Allen. É também uma das mais maltratadas.
Não me refiro apenas às traduções, embora essas mereçam conversa à parte. Refiro-me ao enquadramento. À forma como o livro chega ao leitor antes de abrir a primeira página: a capa, o título escolhido pelo editor, a prateleira onde é colocado. Em Portugal, quando existe, aparece invariavelmente confinado ao universo da autoajuda superficial ou do desenvolvimento pessoal de aeroporto. O leitor que o encontra assim não sabe o que está prestes a ler. E por isso, acaba por muitas vezes não ler da forma certa.
O Novo Pensamento — o movimento filosófico e espiritual do qual Allen é uma das figuras centrais — não é o precursor comercial da literatura de autoconhecimento moderna. É o seu precursor espiritual. A distinção importa. O Novo Pensamento não promete resultados: descreve leis. E a lei central que Allen expõe em As a Man Thinketh não é a que os seus sucessores popularizaram: não atraímos o que queremos, mas sim o que somos. É esta nuance metafísica, a de que o carácter e o destino são uma unidade indivisível, que se perde sistematicamente nas edições de massas.
Este movimento antecipou em décadas o que hoje se popularizou como a lei da atracção. Mas em Allen, a lei da atracção não é um mecanismo para obter bens de consumo. É uma lei natural de correspondência, herdeira directa da tradição hermética: o que está em cima é como o que está em baixo, o que está dentro é como o que está fora. A mente é a arquitecta da realidade. Somos, e tornar-nos-emos, naquilo em que pensamos consistentemente. O imperativo de enobrecer o pensamento não serve um intuito de enriquecimento material ou de superioridade comparativa. Serve para que o mundo em nosso redor se desdobre na sua versão mais elevada.
É por isso que a escolha do título de tradução não é uma questão cosmética. O universo do self-help desfigura a obra com títulos como Tu és aquilo que pensas ou Torna-te aquilo que és. A força transmutativa da mensagem dissipa-se quando não se traduz quase literalmente: Como um Homem Pensa. Esta escolha não é minha. É do autor. Alude directamente à máxima bíblica de Provérbios: As a man thinketh in his heart, so is he. Era essa a intenção de Allen, e é essa a intenção que a Pymandra tem a obrigação de respeitar.
Há qualquer coisa que só quem traduziu um texto desta natureza consegue compreender plenamente. A palavra, a frase, o parágrafo, são recipientes de uma energia específica. Essa vibração percorreu um caminho do etéreo primordial para a mente do autor e, através da sua vontade e da sua acção, fixou-se no papel. Transportá-la para outra língua exige mais do que competência linguística. Exige uma espécie de submissão ao texto, uma disponibilidade para ser atravessado por ele antes de o verter. É uma função alquímica: a transmutação do tradutor precede a transmutação do leitor.
A grande maioria das editoras ignora isto. Ao recorrerem a um critério puramente comercial, limitam-se a vender um produto que promete um efeito supérfluo e, no limite, impossível: transformar o indivíduo do exterior para o interior. Mas se observarmos a lei natural que nos permeia, percebemos que o único crescimento real é, por definição, um desabrochar de dentro para fora, como a flor que desponta após a intempérie do inverno. É isso exactamente que Allen ensina. E é precisamente o que uma tradução descuidada destrói antes de o leitor chegar à primeira página.
A edição Pymandra de Como um Homem Pensa nasceu desta convicção. O trabalho de traduzir Allen não foi o de modernizar ou simplificar. Foi o de me manter fiel ao espírito evocativo do original, sem o trair para torná-lo mais palatável. Quem quiser comercialismo fútil tem opções. Quem quiser a Verdade de Allen, tem esta.
Miguel Gomes é o editor da Pymandra, editora portuguesa de filosofia perene, hermetismo e Novo Pensamento.